Apreciação do livro “A menina que tinha tudo” por Cláudio Eduardo Resende Alves

Uma lata, uma lata amassada é ponto de partida e o ponto de chegada da história de uma menina negra que quer descobrir e ocupar o mundo. A artista, escritora e ilustradora Sarah Abraão tece uma narrativa potente, envolvente e esteticamente feliz aos olhos que quem saboreia seu livro. Suas aquarelas coloridas e vibrantes desafiam a lei da gravidade e dão vida ao texto a cada página do livro. As ilustrações fazem parte da história, povoam a imaginação e o inconsciente coletivo não só da infância, mas também da adolescência e da vida adulta. Afinal, quem criou a regra social de que livro infantil é apenas para crianças? Voltemos a lata amassada que oscila entre o nada e o tudo, entre o possível e o impossível dentro da bolsa amarela da menina. Objetos são mais do que meros objetos, objetos são possibilidades de leitura de mundo, objetos podem e devem ser desformatados e repensados à luz do fazer artístico. Objetos podem ser transformados em desobjetos. Um objeto desobjetificado é aquele desformatado de suas características mensurais como cor, tamanho, peso e função e relido em seu potencial disruptivo, inconstante e nômade (ALVES e PARAÍSO, 2021, p. 124). Um (des)objeto nada mais é do que um pretexto discursivo para exercitar o estranhamento do olhar e, assim, fazer pensar, refletir, contrapor, imaginar e aprender com o mundo. Já diria o poeta Manoel de Barros, “o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê (…) é preciso transver o mundo, tirar da natureza as naturalidades” (BARROS, 2014, p. 76). Este é o convite que o livro “A menina que tinha tudo” nos faz, usar a imaginação para viajar, desformatar o olhar e o fazer artístico, abrir portas, colecionar desobjetos, resistir às tempestades, conectar nosso dentro e nosso fora, preservar memórias e alimentar sempre nosso desejo de ser e de estar no mundo. Referências: ALVES, Cláudio Eduardo Resende; PARAÍSO, Marlucy Alves. Um currículo-museu com gênero: experimentações para produzir (des)objetos. Currículo sem fronteiras, [s. l.], v. 21, n. 2, p. 950-68, maio/ago. 2021. BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.


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